Qual visão política o cristão deve ter?

Não é preciso ser um cientista político para perceber a situação de completo caos que se encontra nossa nação. Escândalos de corrupção eclodem a todo momento, levantando o tapete e mostrando toda podridão de conluios e conchavos feitos outrora, com o fim de favorecer a políticos que visam apenas o enriquecimento pessoal, desviando milhões, até trilhões para seus próprios bolsos. No entanto, pelo menos a nossa vista, isso não é grande surpresa, também não é o que pretendemos tratar nesse texto, apesar de saber que é um assunto do nosso interesse, mas sim, qual tem sido e qual deve ser a reação do povo de Deus frente à tamanha desordem.

O que nos chama a atenção é que, no meio desse turbulento cenário social, muitos cristãos dividem-se em duas correntes de pensamento político (ou até três), depositando certa expectativa nas mesmas, achando que de alguma forma haverá algum tipo de melhora na situação do Brasil. Esse deposito de “esperança” nos trâmites políticos através de orientações e até pessoas que representem essas orientações, configura um grave erro, que inclusive já foi cometido no passado, e é exatamente esse erro que pretendemos expor agora, na passagem citada no título deste artigo.

Depois de uma longa trajetória a frente da casa de Israel como juiz e sacerdote do SENHOR, Samuel agora é velho e está cansado, ser juiz do povo de Deus consome muita energia, e ele já não te o vigor de antes. Vendo que já não suportaria o fardo por muito mais tempo, Samuel decide colocar como juízes de Israel seus dois filhos; Joel e Abias. Mas antes de continuarmos sobre a descrição dos fatos que se seguem no texto, é válido uma análise do contexto anterior a essa narrativa.

Samuel, desde o começo de sua história foi um homem envolvido na casa de Deus, como cumprimento da promessa que fez sua mãe; Ana, caso viesse a dar à luz a um filho. A despeito dos filhos de Eli, Hofni e Finéias, que embora tão jovens quantos Samuel, eram maus e faziam o que desagradava a Deus, Samuel desde cedo aprendeu a ouvir a voz do SENHOR e a pensar de acordo com a Lei de Deus.

No capítulo 7 do livro de I Samuel, o profeta desempenha da parte de Deus um papel crucial na recuperação da arca do Senhor e na vitória de Israel sobre os filisteus, de sorte que observando toda a trajetória de Samuel, perceberemos que apesar de ser um importante canal usado pelo Criador para conduzir o povo ao arrependimento (I Samuel 7:3), o que era parte do ministério profético, era o próprio Deus quem administrava a casa de Israel por meio dele, e embora pensemos que pela instrumentalidade de Samuel, Deus tenha sido um governante indireto do povo, quando entendemos quem é o SENHOR, sabendo que todas as coisas ocorrem segundo o bom propósito de Sua vontade, nitidamente chegamos à conclusão que o Rei de Israel sempre foi o próprio SENHOR, tendo desempenhado todos os papeis “cabíveis a um rei”:

1) Libertação e condução do povo à vitória diante dos inimigos: Na história do êxodo, ocorre com o povo, além de liberto da escravidão ou de uma situação de julgo de outro povo sobre si, lemos a ação “militar” de Deus quando vence o exército egípcio, o lançando no mar e o afogando.
2) Provedor e administrador: No caminho pelo deserto, como Rei do povo, o SENHOR providenciou os recursos necessários para que a nação de Israel permanecesse viva, numa que “nem suas sandálias se desgastaram”.

3) Julgamento e aplicação da justiça: quando rebeldes insurgentes se levantavam no meio do povo, com o fim de o corromper e o levar ao erro, promovendo desordem social, o próprio Deus se encarregava de os julgar e punir com a devida demonstração de integridade e justiça.

Constatar assim, que o SENHOR Deus era o Rei de Israel é um caminho lógico a ser percorrido e traçado na própria Escritura. É importante notar isso, para que compreendamos agora com mais nitidez, a fala do SENHOR no versículo 7 do capítulo 8, quando o SENHOR diz: “E disse o Senhor a Samuel: Ouve a voz do povo em tudo quanto te dizem, pois não te têm rejeitado a ti, antes a mim me têm rejeitado, para eu não reinar sobre eles”.
A observação feita por Samuel é corrigida por Deus, pelo fato de que Samuel analisou a situação pela ordem de que; como os filhos de Samuel eram maus juízes em Israel, ele estava sendo rejeitado e por isso Deus também o estava sendo. Entretanto, a ótica divina ressalta a situação inversa, pois o povo não estava rejeitando Samuel por causa de seus filhos, mas estavam rejeitando o próprio Deus, depositando a melhora da “administração” da nação através de um homem que os governasse como um rei. Ou seja, o povo não estava rejeitando o arauto de Deus para depois rejeitar a Deus, mas estavam rejeitando o governo direto do SENHOR sobre o povo desejando um outro rei.
Aqui talvez seja válida o seguinte questionamento: Será que seria de fato um pecado Israel pedir um rei a Deus? Para responder essa pergunta, devemos analisar um outro texto bíblico, Deuteronômio 17.
O texto diz:

Quando entrares na terra que te dá o SENHOR teu Deus, e a possuíres, e nela habitares, e disseres: Porei sobre mim um rei, assim como têm todas as nações que estão em redor de mim; Porás certamente sobre ti como rei aquele que escolher o SENHOR teu Deus; dentre teus irmãos porás rei sobre ti; não poderás pôr homem estranho sobre ti, que não seja de teus irmãos. Porém ele não multiplicará para si cavalos, nem fará voltar o povo ao Egito para multiplicar cavalos; pois o SENHOR vos tem dito: Nunca mais voltareis por este caminho. Tampouco para si multiplicará mulheres, para que o seu coração não se desvie; nem prata nem ouro multiplicará muito para si. Deuteronômio 17: 14-16.

As condições para estabelecimento de um rei estão arroladas neste capítulo, e uma das que se destacam é o não acúmulo de bens e riquezas. Ou seja, quando Israel se estabelecesse na terra que o SENHOR havia prometido, o próprio Deus se encarregaria de designar um homem que pudesse reinar sobre o povo, e uma das marcas do seu reinado, seria exatamente o não acúmulo de bens baseados em espoliação sobre o povo.

O que ocorre em I Samuel 8, é o inverso desta situação. Como pena por ter rejeitado o governo de Deus desejando um homem que não havia sido indicado pelo SENHOR para ser rei, Israel sofrerá com um monarca que teria como gana primária as riquezas, tesouros e bens que ele acumularia através da imposição de uma servidão sobre o povo.
O cumprimento desse juízo é facilmente notado, no episódio narrado no capítulo 15 do mesmo livro, quando Saul desobedece a ordem de Deus por meio de Samuel, e ao invés de destruir todo o povo dos amalequitas juntamente com seus bens e riquezas, “Saul e o povo pouparam a Agague, e ao melhor das ovelhas e das vacas, e as da segunda ordem, e aos cordeiros e ao melhor que havia, e não os quiseram destruir totalmente; porém a toda a coisa vil e desprezível destruiu totalmente”. Por conta desse pecado, ele fora rejeitado como rei, e o povo posteriormente sofreu derrotas nas mãos dos filisteus, até que Davi fora entronizado, e lutou contra os mesmos, livrando o povo de seu inimigo.

Não está de fato exposto aqui a situação de servidão que o povo teve para com seu rei, embora seja notório que ao longo da narrativa nota-se que o rei tinha servos e servas. A rígida rejeição de Saul como rei, por si só, já revela o grande erro do povo ao ter pedido que um rei fosse ungido, segundo o gosto do povo e não de Deus.

A questão agora é como tudo isso pode se aplicar a nós hoje, e como muito cristãos erram ao depositarem sua confiança e esperança em sistemas políticos.

A situação não gira em torno de como os ímpios agem, numa que certamente eles elegem para si personalidades que lhes parecem mais capazes de promover a paz e a ordem, como redentores de suas vidas, na expectativa de que vivam um mundo melhor, mas em como cristãos observam essas atitudes e as copiam agindo exatamente da mesma forma.

Direita ou esquerda? Socialismo ou libertarianismo? E se nós lhe dissermos que nenhuma nem outra? Agora observemos com atenção o salmo 2.

Este salmo escrito por Davi, com certeza fala acerca do seu reinado e sua perspectiva acerca de como Deus governa a nação de Israel através dele, quando chama a si mesmo de ungido do SENHOR. Entretanto, olhando para a progressão da revelação, entendemos que também pode ser aplicado ao governo de Cristo sobre o mundo, como sendo o Filho de Deus e o real Ungido do SENHOR.

Enquanto os governantes desse mundo, apelam para seu tão frágil momento de poder, o SENHOR dos altos céus, tendo escolhido para si um Rei que governará seu povo, zomba e ri de todos eles. O rei do salmo 2 é apontado como aquele que julgará com vara de ferro as nações, e que seria insensato se rebelar contra ele.

É nítido que há uma divergência clara entre os reis da terra e o Rei dos reis, como, pois, poderíamos achar que há algo neste mundo que poderia prender nossa atenção e esperança crendo que de alguma forma homens poderiam ser a esperança de nações?

Este texto não pode ser utilizado para promover a anarquia, pois sabemos que as autoridades são instituídas por Deus para servirem como instrumentos de justiça. Nem tão pouco estamos falando que é inútil exercermos nossa responsabilidade social, seja através do voto ou de todos os exercícios cívicos exigidos de nós como cidadãos, pois nos é exigido uma conduta moral e social ilibada e isso inclui com certeza uma postura cristã de bom testemunho diante do mundo.

Nossa intenção é fazer nítido a todos que, sua esperança como cristão não está posta em homens, não está posta em sistemas de governo, nem em filosofias de direita, esquerda ou quaisquer outras orientações políticas, mas em Cristo! Somente em Cristo podemos ter alguma esperança de um futuro melhor, que se dará apenas em sua volta, quando destruirá o mal e eliminará de uma vez por todas o pecado.

Nas Escrituras Cristo é chamado de “O Príncipe da paz”, devemos lembrar qual é a função do príncipe no contexto em que esse título foi atribuído ao messias. Geralmente, o príncipe é o filho do rei que exerceria o papel de chefe dos generais dos exércitos. Ele ia lutar as guerras pelo reino, para conquistar os reinos inimigos. Tendo conquistado, declarava que aquele pedaço de terra agora pertencia ao seu reino, e, portanto, ao seu rei. A mesma coisa ocorre com Cristo, Ele é o Filho do Rei, sendo Ele mesmo Rei, que sai em campanha de guerra contra os inimigos. No final de tudo, Cristo vencerá os inimigos de uma vez por todas e declarará a paz neste mundo sendo seu.

Assim, quando depositamos nossa esperança em algum sistema político ou mesmo em algum político, estamos colocando nossa expectativa em outro rei que não Jesus, logo, nos distanciamos da perspectiva do Reino de Deus em seu Cristo. Além do que, estamos alicerçando nosso coração em homens cujos os corações são tão enganosos quanto os nossos, e que cedo ou tarde militarão a causa do mal se não tiverem seus corações regenerados pelo Espírito Santo de Deus.

Em um mundo cada vez pior, realmente é difícil aquietar nosso coração na Rocha Inabalável que é Jesus, todavia, pela Sua Palavra, através do Espirito Santo, podemos e devemos confiar que o nosso Rei virá em nosso socorro, pois Ele está conosco todos os dias, até a consumação dos séculos.

Desta forma, não precisamos clamar como Israel pela unção de um rei, pois CRISTO JESUS É O NOSSO REI! Como cidadãos desse mundo, é bem verdade que temos deveres cívicos e devemos nos envolver na política sim, com o fim de cumprirmos o nosso dever de igreja, sendo aquela que tem o poder das chaves, indicando ao estado e à sociedade o caminho da verdadeira justiça e equidade. Mas nosso coração deve estar guardado quanto a depositar em alguém a esperança que só deve estar em Cristo, pois somente Ele é Rei, tanto do nosso coração quanto de todo universo.

Cristo trinfa!

Fonte: http://reformai.com/3556-2/

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